EU DIGO:

SERÃO SEMPRE BEM-VINDOS AO MEU ESPAÇO.
MUITO OBRIGADA PELA VOSSA VISITA

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sexta-feira, 18 de agosto de 2017

A MÁQUINA DO MUNDO.


(Carlos Drummond de Andrade)
E como eu palmilhasse vagamente
uma estrada de Minas, pedregosa,
e no fecho da tarde um sino rouco
se misturasse ao som de meus sapatos
que era pausado e seco; e aves pairassem
no céu de chumbo, e suas formas pretas
lentamente se fossem diluindo
na escuridão maior, vinda dos montes
e de meu próprio ser desenganado,
a máquina do mundo se entreabriu
para quem de a romper já se esquivava
e só de o ter pensado se carpia.
Abriu-se majestosa e circunspecta,
sem emitir um som que fosse impuro
nem um clarão maior que o tolerável
pelas pupilas gastas na inspeção
contínua e dolorosa do deserto,
e pela mente exausta de mentar
toda uma realidade que transcende
a própria imagem sua debuxada
no rosto do mistério, nos abismos.
Abriu-se em calma pura, e convidando
quantos sentidos e intuições restavam
a quem de os ter usado os já perdera
e nem desejaria recobrá-los,
se em vão e para sempre repetimos
os mesmos sem roteiro tristes périplos,
convidando-os a todos, em coorte,
a se aplicarem sobre o pasto inédito
da natureza mítica das coisas.
(Trecho de A Máquina do Mundo, de Carlos Drummond de Andrade).

sexta-feira, 11 de agosto de 2017

CAMINHOS

Caminhos ??


Tentei!!
Percursos .. caminhei!!! 
Onde me encontro??
Não gostei...!!
Mas caminhos!!
Sei que bem ou mal sempre lutei...!!
Apesar das deficuldafes.
Ainda tive momentos que amei.
Saudade??
Sim caminhos eu tive...!!
Contigo venho a descobrir a verdade.
Até amanhã caminho.
Te dou obrigado meu caminho.
Pora eu saber guardar a saudade!!

Filipe Alpoim.

sábado, 5 de agosto de 2017

O VALE DOS FETOS

 
 
O VALE DOS FETOS

Quando somos pequenos, o tempo é enorme. Os anos 80 tiveram, aliás, os verões mais longos desde que há registo. São dados de autoridades variadas, NASA inclusive. Foi um fenómeno único e irrepetível posto que entre o final das aulas e o seu recomeço passavam mais de três meses mas, subjectivamente, passavam aí uns três anos. Quando somos pequenos, o tempo conta-se como o dos cães, cada ano vale aí por uns sete e cada mês por quase um ano. Tudo é gigante mas tudo gira à nossa volta, até a lua nos persegue quando vamos sentados no banco de trás do carro. Somos o centro central centrão mindinho desse universo colossal. Não há memória de uns verões tão intermináveis, tenho dito. Nos anos 90 já não foram tão grandes e, depois de chegar o século XXI, quase desapareceram e parecem mesmo em vias de extinção. Factos confirmados por instituições.
Nos anos 80, em Setembro, depois da época de praia íamos ao Luso, para uma pequena casa já na fronteira com a mata do Bussaco. A viagem desde Coimbra - onde morávamos- era curta. Até a nós parecia curta. Chegados, já não havia nada para fazer. Já tinha passado o mundial, o rally de portugal e a volta à França em bicicleta, os jogos sem fronteiras e tudo e tudo. O televisor ficava desligado, abandonado no canto da sala, magnético de pó fino, como há quem faça à tia desmoriada e muito antiga. Já não havia praia nem os magotes de primos, esses queridos irmãos de verão e natal. Já tinham acabado os gelados da Figueira da Foz. Era Verão porque o Verão só acaba às portas de Outubro, porque a escola só recomeçava em Outubro. Era verão porque continuava calor, o cheiro a incêndio ia e vinha e as cigarras ainda enchiam o silêncio do serão. Nada a fazer. Eu e o meu irmão mais velho lá arranjávamos coragem para entrar na mata. Furávamos entre os cedros, as sequoias e os azereiros, descíamos ao vale dos fetos (nome que me ocupava nas noites demasiado quentes para adormecer) e perdíamos-nos no bosque de adernos. Era a loucura e o dia ganho se víamos pica-paus ou tritões. Nunca víamos mas inventávamos que tínhamos visto. A mentirola enchia-nos o dia duas vezes: uma porque quase acreditávamos que tínhamos mesmo topado uma águia-calçada, outra porque ainda tínhamos o frisson da peta. Quase víamos, praticamente tínhamos visto, era possível. Aí está o que era importante. A mata tinha sempre um potencial de perigo e isso é que interessava no meio daquele abafo modorrento. 
O mesmo nas raras idas à piscina olímpica do grande hotel do Luso. O espelho de água estendia-se os 50 metros de comprimento e, quando abria de manhã numa terça ou numa quarta feira de Setembro, desses verões mais longos desde que há memória, ela ficava assim quieta, imóvel, majestática, como bailarina em pose, como se tivesse congelado com 36 centígrados cá fora. Mas pouco queríamos saber disso. Corríamos para o final da pista, mais rápido do que nadaria Mark Spitz, e subíamos a escadas das pranchas. A cerimónia era sempre a mesma: primeiro a de 3 metros. Canja. Depois a de 5. Confirma. Por fim, a rainha, a prancha de 10 metros de altura. O mundo era tão grande, nós tão pequenos e aqueles 10 metros, o equivalente a um terceiro andar, pareciam um salto de um arranha céus. Mas faziam-se. Depois de uma boa meia hora lá em cima, entre o medo de saltar e o medo de descer as escadas (feitas apenas para subir), entre a excitação e a vergonha, lá se acabava por deixar o corpo tombar, primeiro olhos bem abertos e depois selados de pavor, sempre com a cabeça cheia daquela lenga lenga de "aterra de pés ", "cuidado com as chapas". Quase que acontecia. Podia ter acontecido. Isso é que interessa Depois era dia 2 de setembro, dia 3, dia 4. Ouvia -se um relógio de pé alto e pêndulo que não existia. Dia 9. Dia 11Quando a minha infância estava quase a acabar cheguei à conclusão de que estava tudo certo - assim , com esses verões distendidos, só com essas verões fenómeno, voltava e crescia a vontade de regressar à escola. Como eram sábios os crescidos e como para eles o universo era pequeno e domável. Até crianças com ganas de aprender conseguiam fabricar. E em tão pouco tempo. Dados da NASA.

A.D,

sexta-feira, 28 de julho de 2017

RECADO....


RECADO
Se eu morrer longe,
sepulta-me no mar
dentro das algas ignorantes 
e lúcidas.

Cobre o meu rosto de palavras
antigas
e de música.
Deixa em meus dedos
a memória mais recente
de outras coisas inúmeras
e nos meus cabelos
o incerto movimento
do vento e da chuva.
Eu vogarei sob as estrelas
com pálidas luzes entre os cílios
e pequenos caramujos
entrarão nos meus ouvidos.
Estarei assim idêntica
a todos os motivos.
.
Glória de Sant'Anna, in Música Ausente

SUBLINHO
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domingo, 23 de julho de 2017

Á BEIRA MAR!!!!!

À beira de que mar
Nos encontrámos já?
Corrias a apanhar
Conchas à beira-mar.
Eu vi-te e não te amei,
Não me amaste, também...
Então porque é que eu sei
Que à beira-mar te amei?
Dá-me as mãos. Sei bem
Que já te tive as mãos
Nas minhas. Houve alguém
Connosco então? E quem?
Pudera! O coração
Conhece mais que nós
Quando virá o perdão
Ao nosso amor de então?
(Fernando Pessoa)

sexta-feira, 14 de julho de 2017

POEMA DA DESPEDIDA!!!



POEMA DA DESPEDIDA

MIA COUTO 

Não saberei nunca 
dizer adeus

Afinal,
só os mortos sabem morrer

Resta ainda tudo,
só nós não podemos ser

Talvez o amor,
neste tempo,
seja ainda cedo

Não é este sossego
que eu queria,
este exílio de tudo,
esta solidão de todos

Agora
não resta de mim
o que seja meu
e quando tento
o magro invento de um sonho
todo o inferno me vem à boca

Nenhuma palavra
alcança o mundo, eu sei
Ainda assim,
escrevo